De uma publicidade pontual nas costas da camisa a um contrato de R$ 150 milhões por temporada. Em 44 anos, o patrocínio do Corinthians acompanhou mudanças profundas no futebol e na própria economia brasileira.
Produtos de limpeza, autopeças, chuveiros, papelaria, tintas, bancos, telecomunicações, alimentos, bebidas, eletrônicos, planos de saúde, medicamentos e casas de apostas já utilizaram o uniforme alvinegro para falar com milhões de consumidores.
A primeira aparição comercial aconteceu em 1982, quando a Bombril estampou sua marca nas costas da camisa. No ano seguinte, a Cofap passou a ocupar a parte frontal. Assim, Bombril pode ser considerada a primeira publicidade comercial, enquanto a Cofap inaugurou o modelo que se aproximaria do atual patrocínio máster.
Era justamente a época da Democracia Corinthiana, quando a camisa também carregava mensagens como “Dia 15 Vote”.
Em 1984, a Duchas Corona protagonizou um dos episódios mais curiosos da história comercial do clube. A empresa participou do esforço para tentar manter Sócrates e colocou até a imagem de um chuveiro no uniforme.
A partir de 1985, começou uma das relações mais duradouras da história corinthiana: a Kalunga permaneceu até 1994, praticamente uma década.
Depois vieram Suvinil, Banco Excel, Embratel, Batavo, Pepsi e Samsung. A sucessão de marcas também ajuda a contar diferentes ciclos da publicidade brasileira.
Nos anos 1980, produtos de consumo e varejo ganharam espaço. Depois vieram bancos e telecomunicações. Nos anos 2000, alimentos, bebidas, tecnologia e saúde. Mais recentemente, o setor financeiro, a indústria farmacêutica e as casas de apostas passaram a movimentar cifras muito maiores.
Quanto o máster passou a valer
Os contratos mais antigos nem sempre tiveram seus valores divulgados publicamente, mas a partir dos anos 2000 é possível acompanhar com mais precisão a evolução.
| Ano/período | Marca | Segmento | Valor divulgado |
|---|---|---|---|
| 1982 | Bombril* | Limpeza | Ação pontual |
| 1983 | Cofap | Autopeças | Não divulgado |
| 1984 | Duchas Corona | Utilidades domésticas | Não divulgado |
| 1985–1994 | Kalunga | Varejo/papelaria | Não divulgado |
| 1995–1996 | Suvinil | Tintas | Não divulgado |
| 1997–1998 | Banco Excel | Financeiro | Não divulgado |
| 1999–2000 | Batavo | Alimentos | Não divulgado |
| 2000–2004 | Pepsi | Bebidas | Não divulgado |
| 2005–2007 | Samsung | Tecnologia | R$ 6,7 mi em 2007 |
| 2008 | Medial Saúde | Saúde | R$ 16,5 mi |
| 2009 | Batavo | Alimentos | R$ 18 mi |
| 2010–2012 | Hypermarcas | Consumo/farmacêutico | R$ 38 mi por vários espaços em 2010 |
| 2012–2017 | Caixa | Financeiro | R$ 30 mi/ano inicialmente |
| 2018 | Sem máster fixo | — | — |
| 2019–2020 | BMG | Financeiro | R$ 12 mi fixos + variável |
| 2021–2023 | Neo Química | Farmacêutico | R$ 17 mi fixos inicialmente |
| 2024 | VaideBet | Apostas | R$ 120 mi/ano + R$ 10 mi em luvas |
| 2024–2026 | Esportes da Sorte | Apostas | R$ 150 mi em 2026 |
*Primeira publicidade comercial, ainda sem o formato atual de patrocínio máster.
De R$ 6,7 milhões para R$ 150 milhões
A escalada fica evidente a partir de 2007. A Samsung pagava R$ 6,7 milhões por ano. Mesmo rebaixado para a Série B, o Corinthians conseguiu fechar com a Medial Saúde por R$ 16,5 milhões em 2008, então um dos maiores contratos do futebol brasileiro.
Em 2009, a Batavo chegou a R$ 18 milhões. A chegada de Ronaldo também mudou a lógica comercial: o clube passou a explorar intensamente mangas, ombros, costas, peito e calção, multiplicando as propriedades disponíveis.
Em 2012, a Caixa assumiu o máster por R$ 30 milhões anuais. Em valores atuais, apenas para dar uma ordem de grandeza considerando a inflação, seriam aproximadamente R$ 60 milhões.
Depois de passar 2018 sem um máster permanente, o Corinthians fechou com o BMG por R$ 12 milhões fixos mais remuneração variável. A Neo Química assumiu posteriormente por R$ 17 milhões fixos anuais no início da parceria.
O grande salto aconteceu com as bets.
Em 2024, a VaideBet acertou contrato de R$ 120 milhões por ano, além de R$ 10 milhões em luvas. Após o rompimento, a Esportes da Sorte assumiu o espaço. Em 2026, o Corinthians contabiliza R$ 150 milhões anuais pelo máster — média de R$ 12,5 milhões por mês. Para efeito de comparação, é quase o que a Medial pagava durante um ano inteiro em 2008.
Camisa chega perto dos R$ 277 milhões
O máster, porém, é apenas uma parte da receita. O Corinthians projetou para 2026 cerca de R$ 276,7 milhões com contratos relacionados à camisa masculina, incluindo patrocínios e fornecimento de material esportivo.
A Esportes da Sorte responde por R$ 150 milhões e a Nike por aproximadamente R$ 89 milhões. Juntas, representam R$ 239 milhões, cerca de 86% desse montante. A dimensão comercial mudou completamente: em 2007, o principal patrocínio rendia R$ 6,7 milhões por ano. Em 2026, apenas o máster alcança R$ 150 milhões — valor nominal mais de 22 vezes superior.
E se as bets saírem?
A eventual necessidade de substituir as casas de apostas coloca o Corinthians diante de outro desafio: encontrar setores capazes de sustentar uma propriedade que chegou à casa das centenas de milhões de reais.
Para Flávio Perez, sócio da agência On Board 360º e especialista em marketing esportivo, o tamanho da torcida oferece possibilidades, mas exige maior profissionalização comercial.
“O Corinthians precisa transformar a força que tem nas arquibancadas em valor de mercado de maneira cada vez mais profissional. Estamos falando de um clube que tem uma das maiores torcidas do país, enorme exposição e, ao mesmo tempo, uma identidade muito particular: é o Time do Povo. Isso tem um valor gigantesco para as marcas, mas precisa ser trabalhado com planejamento, governança e uma estratégia comercial de longo prazo”, afirma.
A própria história mostra que a camisa não depende necessariamente de um único segmento. Perez aponta setores que poderiam ser mais explorados.
“O Corinthians tem tamanho para buscar patrocinadores muito além dos segmentos que tradicionalmente dominam o futebol. Bancos e fintechs, tecnologia, telecomunicações, mobilidade, companhias aéreas, energia, varejo, alimentos e bebidas, saúde, educação, seguros e até empresas globais que estejam buscando ampliar presença no Brasil são mercados que podem ser trabalhados. O ponto principal é não vender apenas um espaço na camisa”, avalia.
Para o especialista, estádio, futebol feminino, categorias de base, basquete, futsal, redes sociais e relacionamento com a torcida podem fazer parte de pacotes comerciais diferentes.
“É possível criar projetos diferentes para cada segmento e entregar dados, conteúdo, experiências e relacionamento com o torcedor. Quanto mais profissional e estruturada for essa oferta, menor será a dependência de um único setor e maior será o valor comercial da marca Corinthians”, completa.
Em 1982, a Bombril inaugurou essa história com uma marca nas costas da camisa. Quarenta e quatro anos depois, o principal espaço do uniforme vale R$ 150 milhões por temporada e todo o ecossistema comercial relacionado à camisa masculina se aproxima dos R$ 277 milhões.
Mudaram as marcas, os setores e, principalmente, os números. O próximo desafio é descobrir qual indústria estará disposta a pagar pela força comercial do Time do Povo.
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Conteúdo: On Board 360
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