O Rosario Central publicou um comunicado nesta sexta-feira (14) para rebater a denúncia de racismo feita pelo goleiro Hugo Souza durante o empate por 0 x 0 com o Corinthians, no Estádio Gigante de Arroyito, pelas oitavas de final da Conmebol Libertadores. Em uma nota com argumentos que chamaram atenção, o clube argentino questionou a existência das ofensas relatadas pelo jogador, sugeriu que a denúncia poderia ter sido utilizada como estratégia esportiva e ainda acusou torcedores corinthianos de atos discriminatórios por exibirem notas de peso argentino e uma camisa da Espanha.
A manifestação aconteceu quase um dia depois de o árbitro Andrés Matonte, do Uruguai, ter acionado o protocolo antirracista da Conmebol durante a partida. Segundo o Rosario Central, não foram encontradas, até o momento, imagens que comprovem os atos denunciados por Hugo Souza. O clube também afirmou que solicitará à entidade sul-americana provas que sustentem a denúncia.
O trecho de maior repercussão do comunicado foi justamente o que relacionou a manifestação do goleiro ao momento esportivo da partida. O Rosario Central destacou que o Corinthians estava com um jogador a menos e sofria pressão da equipe argentina quando Hugo Souza procurou a arbitragem.
“A discriminação é um tema sério demais para ser utilizado como um artifício a serviço da conveniência desportiva, e estamos dispostos a denunciar aqueles que pretendam valer-se dela com esse fim”, afirmou o clube argentino em sua nota oficial.
Além de contestar a denúncia, o Rosario Central direcionou acusações à torcida do Corinthians. Segundo o clube, torcedores brasileiros exibiram notas de peso argentino como forma de deboche à situação econômica do país e mostraram uma camisa da Espanha, seleção que derrotou a Argentina por 1 x 0 na final da Copa do Mundo de 2026. O clube informou que reunirá registros dessas situações para encaminhá-los à Conmebol.
Apesar do teor da manifestação, o Rosario Central afirmou que abriu uma investigação interna para apurar eventuais atos de violência ou discriminação praticados por seus próprios torcedores. Caso sejam identificados responsáveis, o clube argentino declarou que aplicará as medidas correspondentes.
Hugo Souza relatou ofensas racistas
Durante o empate sem gols, Hugo Souza procurou a arbitragem e denunciou insultos vindos das arquibancadas. Andrés Matonte interrompeu o confronto e acionou o protocolo da Conmebol. Ángel Di María chegou a pedir aos torcedores do Rosario Central que interrompessem os xingamentos, enquanto o sistema de som do Gigante de Arroyito também emitiu avisos ao público.
Após a partida, Hugo Souza detalhou à ESPN Brasil o que afirmou ter ouvido durante o confronto.
“Infelizmente toda vez que a gente vem aqui é assim, o jogo todo, parece uma coisa comum, que não pode ser. É o jogo todo chamando de macaco, mono, negro de merda. Isso é uma coisa que acontece frequentemente aqui. Minha única atitude que posso fazer é comunicar o juiz, porque infelizmente é algo que acontece com frequência aqui. O que tem de fazer é tentar manter a cabeça no jogo e torcer para que isso um dia mude”, comentou.
O Corinthians também se manifestou após o confronto e cobrou providências da Conmebol, além de uma investigação sobre o episódio ocorrido no estádio argentino.
O Rosario Central volta a repudiar enfaticamente todo ato de racismo, discriminação e provocação no âmbito de uma partida de futebol.
Na noite de ontem, quinta-feira (13), no jogo contra o Corinthians disputado em nosso Estádio Gigante de Arroyito pelas oitavas de final da CONMEBOL Libertadores, torcedores da equipe visitante protagonizaram atos que, a nosso ver, resultam racistas, discriminatórios e provocadores em relação aos jogadores do Central e à nossa torcida, fatos que ocorreram durante a disputa da partida e também após o seu encerramento. Nesse sentido, cabe referir-se à já repetida exibição de notas da moeda nacional, o que configura uma clara ofensa e deboche ao nosso país; a isso somou-se a exibição de uma camisa espanhola, em outro ato de provocação ao nosso público.
Estes fatos resultam inadmissíveis e de uma gravidade que não devemos naturalizar.
Nosso clube conta com provas que colocará à disposição da CONMEBOL para que intervenha diante destes reiterados atos, que consideramos claramente provocadores e discriminatórios, e que lamentavelmente se repetem toda vez que nos cabe enfrentar algumas equipes brasileiras.
No mesmo sentido, solicitaremos à CONMEBOL que investigue e exija do árbitro da partida as provas que respaldem, de forma irrefutável, os supostos xingamentos e atos racistas que o goleiro do Corinthians denunciou de forma unilateral durante o jogo. A respeito disso, cabe mencionar o contexto em que o citado jogador fez sua denúncia: ela ocorreu logo após sua equipe ter ficado com dez jogadores devido a uma expulsão, e no momento em que o Central estava atacando, empurrado por seu público. A discriminação é um tema sério demais para ser utilizado como um artifício a serviço da conveniência desportiva, e estamos dispostos a denunciar aqueles que pretendam valer-se dela com esse fim.
Com relação a este fato denunciado, ainda não encontramos nenhuma imagem de atos dessa natureza no local do campo em que se encontrava o goleiro no momento em que fez a denúncia.
Sem prejuízo do exposto, o Rosario Central encontra-se realizando uma investigação interna sobre qualquer ato de violência ou discriminação que possa ter ocorrido por ocasião da referida partida. Se no âmbito dessa revisão aparecer algum torcedor do Rosario Central envolvido em uma conduta passível de punição, o clube será implacável na aplicação das medidas correspondentes. O Rosario Central destina todo tipo de recurso para desativar e desestimular qualquer forma de discriminação dentro de nossa instituição, e o fazemos não por obrigação, mas por convicção. Nesse caminho vamos continuar, redobrando esforços para prosseguir na construção de um clube que defenda esses valores.
Por último, não podemos deixar de ressaltar nossa preocupação a respeito de um padrão que se repete e que consideramos necessário expor, referente à impunidade por parte de certos clubes na busca por obter vantagem desportiva através da ameaça permanente de denunciar e amedrontar o adversário da vez.





