Garro de volante? Mudança de Diniz resgata invenções históricas do Corinthians

Rodrigo Garro mais longe da área e iniciando as jogadas do Corinthians. A ideia de Fernando Diniz para tentar recuperar o rendimento da equipe durante a Data Fifa pode acrescentar o argentino a uma lista de jogadores que tiveram suas funções modificadas durante a passagem pelo Parque São Jorge.

A comissão técnica trabalha com a possibilidade de utilizar Garro como uma espécie de camisa 8, chegando a exercer a função de segundo volante em determinados momentos. A experiência já apareceu no segundo tempo da derrota por 3 a 1 para o Fluminense e agradou a Diniz.

O objetivo é utilizar a qualidade técnica do argentino para iniciar a construção mais próximo dos volantes e, ao mesmo tempo, adiantar Memphis Depay para jogar atrás do centroavante.

Não significa transformar Garro em um marcador clássico.

A ideia é fazê-lo receber a bola de frente para o campo e participar mais da primeira fase da construção. Caso os testes funcionem, o argentino pode alternar entre terceiro homem do meio e segundo volante, dependendo da situação da partida.

A estratégia tem precedentes interessantes na história corinthiana.

Rincón: a mudança que entrou para a história

Talvez nenhuma transformação seja tão emblemática quanto a de Freddy Rincón.

O colombiano chegou ao Corinthians consagrado como um meio-campista de características ofensivas, depois de passagens por clubes como Palmeiras, Napoli e Real Madrid.

Foi com Vanderlei Luxemburgo, especialmente durante o Brasileiro de 1998, que Rincón passou a atuar definitivamente mais atrás.

Na reta final daquele campeonato, Luxemburgo recuou o colombiano para ser o primeiro volante, enquanto Ricardinho entrou no meio-campo.

A lógica tinha semelhanças com o que Diniz procura agora com Garro: colocar um jogador tecnicamente acima da média em uma região mais recuada para melhorar a saída de bola.

O próprio Luxemburgo explicou anos depois a transformação.

“O meu time precisava de mais pegada no meio, por isso tentei usar o Freddy como volante.”

O treinador ainda definiu Rincón como o melhor volante com quem trabalhou.

O resultado entrou para a história.

Rincón e Vampeta passaram a formar a base de um meio-campo extremamente técnico. À frente deles estavam jogadores como Marcelinho Carioca e Ricardinho.

O Corinthians foi campeão brasileiro em 1998 e 1999 e conquistou o Mundial de Clubes em 2000.

Rincón deixou de ser apenas um meia para tornar-se referência como volante, capitão e responsável pelo primeiro passe da equipe.

Luxemburgo também reinventou Vampeta

Rincón não foi a única experiência daquela equipe.

Vampeta havia atuado como lateral-direito em parte da carreira. Luxemburgo aproveitou sua capacidade técnica e o colocou definitivamente no meio.

Com Rincón mais centralizado e Vampeta tendo liberdade para circular, o Corinthians passou a ter dois jogadores capazes tanto de recuperar a posse quanto de construir.

O próprio Luxemburgo também modificou a função de Edílson, que passou do meio para atuar mais adiantado.

O Corinthians campeão brasileiro de 1998 acabou sendo um dos maiores exemplos de como mudanças posicionais podem alterar completamente uma equipe.

Sylvinho deixou a lateral para jogar no meio

Outro caso aconteceu justamente naquela década.

Formado no Terrão, Sylvinho subiu definitivamente para o profissional em 1995 e rapidamente tomou conta da lateral esquerda.

Mas a contratação de André Luiz, em 1997, criou uma situação diferente.

Em vez de simplesmente tirar Sylvinho da equipe, o Corinthians passou a utilizá-lo também no meio-campo.

André Luiz ficou com a lateral durante parte da campanha do título paulista e Sylvinho encontrou espaço mais adiantado.

Não se tratava de transformá-lo definitivamente em volante. A experiência, porém, já mostrava uma lógica que seria cada vez mais comum no futebol: aproveitar a qualidade de passe e movimentação de um lateral em setores interiores.

Sylvinho permaneceu no Corinthians até 1999 e disputou 269 partidas, conquistando cinco títulos: os Paulistas de 1995, 1997 e 1999, a Copa do Brasil de 1995 e o Brasileiro de 1998.

Matheus Bidu: de descartado a peça importante

Mais recentemente, Matheus Bidu viveu uma transformação diferente.

Não foi exatamente uma troca definitiva de posição, mas uma mudança na maneira de utilizá-lo.

No início de 2024, o lateral ficou fora até mesmo da lista de inscritos do Corinthians no Campeonato Paulista e esteve próximo de deixar o clube.

A chegada de Ramón Díaz mudou o cenário.

Bidu voltou a receber oportunidades, ganhou sequência e terminou aquela temporada como titular absoluto justamente durante a arrancada que levou o Corinthians a nove vitórias consecutivas no Brasileirão e à classificação para a Libertadores.

No sistema de Ramón, sua característica ofensiva passou a ser mais explorada, com liberdade para avançar e participar da construção pelo lado esquerdo.

De jogador praticamente descartado, tornou-se peça importante.

Garro pode ser o próximo?

A experiência de Fernando Diniz ainda está longe de poder ser comparada aos resultados obtidos com Rincón.

Por enquanto, trata-se de uma alternativa tática.

Garro viveu grande momento no início do trabalho de Diniz. Nos primeiros cinco jogos com o treinador, distribuiu quatro assistências. Depois, sua produção decisiva caiu: chegou a setembro com apenas uma assistência nos 15 compromissos seguintes.

Recuá-lo é uma tentativa de fazê-lo participar novamente de mais ações.

A mudança também está ligada a Memphis.

Com um centroavante à frente — Gui Negão ou Yuri Alberto —, o holandês pode jogar mais próximo da área. Garro, por sua vez, teria mais campo para organizar a equipe desde trás.

Uma possível estrutura pensada durante a Data Fifa tem Raniele e André no setor central, Garro como terceiro homem do meio e liberdade para o argentino baixar ao lado dos volantes durante a construção. Em formações mais ofensivas, ele próprio pode exercer a função de segundo volante.

De Rincón a Garro

Existe uma diferença importante entre improvisar e reposicionar.

Rincón não se tornou um grande volante simplesmente porque foi colocado alguns metros atrás. Luxemburgo identificou características que poderiam funcionar naquela região: força física, capacidade de proteção da bola, leitura de jogo e qualidade no passe.

Sylvinho tinha técnica e mobilidade suficientes para deixar temporariamente a lateral e jogar no meio.

Vampeta transformou-se de lateral em um dos principais meio-campistas brasileiros daquele período.

Bidu recuperou a carreira no Corinthians quando passou a atuar em uma estrutura que potencializava suas características ofensivas.

Agora, Diniz tenta encontrar algo semelhante com Garro.

A aposta é retirar o camisa 8 argentino da região em que normalmente recebe a bola já pressionado próximo da área e fazê-lo participar antes da jogada.

Se funcionará como aconteceu com Rincón é impossível saber.

Mas a tentativa de transformar um jogador criativo em organizador desde uma faixa mais recuada está longe de ser novidade no Parque São Jorge.

Há quase três décadas, uma mudança parecida ajudou a criar um dos melhores meio-campos da história do Corinthians.


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